De
9 à 12 de fevereiro, foliões e turistas celebraram o carnaval de Maragojipe,
que é marcado pela forte tradição dos carnavais de rua, com presença de
mascarados, caretas, fantasias diversas e orquestras carnavalescas. Como o tema
“Aqui é o povo que faz”, a festa foi organizada pela Associação de Músicos de
Maragojipe – AMMA e a Prefeitura Municipal.
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A praça dos mascarados reuniu a tradição do carnaval das marchinhas. População sentiu falta do concurso de mascarados. Foto: Lorena Morais/RecôncavoOnline |
Após
rumores de que o carnaval não seria realizado, a festa aconteceu com um desfile
de fantasias feito pelo povo e uma programação cultural em dois palcos
distintos. O professor e historiador Zevaldo Sousa sentiu falta do concurso de
fantasias neste ano. “Faltou o concurso de mascarados, de marchinhas, de rei
momo, rainha e princesas. Pois para mim Carnaval é simplicidade, não ligo para
bandas famosas”, diz.
A
não realização do concurso pode ter sido resultado do conflito político que acabou
atrapalhando na organização da festa. Com o intuito de captar recursos para o
carnaval da cidade, a AMMA e parceiros enviaram ao Governo do Estado um projeto
desde o ano passado e através da aprovação, a instituição conseguiu sozinha
arrecadar cerca de 500 mil reais em investimentos.
Na
tentativa de dialogar com a prefeitura local, conflitos políticos entre a nova
gestão e aliados da gestão passada – que foram responsáveis pelo envio do
projeto ao Estado – fez com que o caso fosse parar no Ministério Público, como
afirmou Luiz Carlos Brasileiro, ex-secretário de Cultura e Turismo da cidade e
parceiro da AMMA. De acordo com Brasileiro, a prefeitura queria ser a
responsável pelo recurso que foi destinado a AMMA para a realização do
carnaval. O pedido veio seguido de ameaças de não liberação dos espaços.
Quem
foi à cidade, conferiu que os outdoors de anúncio da festa foram retirados.
Testemunhas também afirmam que o bloco de rua do ex-prefeito foi impedido de
seguir o percurso no centro da cidade.
Com
intervenção da promotoria pública, o caso foi acompanhado pela justiça e os
conflitos foram apaziguados, fazendo com que a festa acontecesse. A AMMA ainda
destinou parte dos recursos à prefeitura, para a infraestrutura da festa, que
também conseguiu investimentos de uma cervejaria.
A
equipe do Recôncavo Online entrou em contato com a prefeitura de Maragojipe mas
não obteve retorno até a publicação dessa matéria.
Manutenção do carnaval
No início dos festejos momescos, mascarados reivindicavam a implantação do ‘Museu do Carnaval’ na cidade. Foto: Luiz Carlos Brasileiro/Acervo Pessoal |
De
acordo com o secretário de Cultura do Estado, Albino Rubim, que ressaltou o reconhecimento do carnaval de Maragojipe como Patrimônio
Imaterial, destacou que é obrigação da secretaria e do Conselho Estadual
de Cultura ajudar na manutenção do
carnaval. “Nós trabalhamos e apoiamos o carnaval de Maragojipe independente de
quem esteja na prefeitura. Surgiram em determinados momentos algumas
dificuldades entre grupos que apoiam o evento e a prefeitura onde tivemos que
entrar no meio para tentar conciliar isso”, diz o secretário.
Ele
contou também que a intenção da secretaria é apoiar a singularidade e
importância do carnaval de Maragojipe. “Depois de muita conversa, conseguimos
entrar em um acordo e repassar o recurso que foi o mesmo do ano passado. Não
vamos dar dinheiro para colocar, por exemplo,
trio elétrico. Nós repassamos o recurso para apoiar o desfile de máscaras e
manter sua tradição. Espero que tenha sido satisfatório”, destacou o
secretário.
O
recurso, que veio através do programa Outros Carnavais, da Secretaria de
Cultura do Estado foi destinado a ações para preservação do Carnaval como
patrimônio cultural (apresentações de grupos culturais, orquestras, exposições,
valorização dos artesãos, entre outros). “O carnaval não deve ser só
responsabilidade do poder público, mas a comunidade tem que se apossar”,
ressalta Brasileiro, que foi um dos idealizadores do projeto.
Com
o registro do carnaval como Patrimônio Imaterial da Bahia, essas ações são
obrigatórias para o Plano de Salvaguarda do Carnaval de Maragojipe. No sábado
(09), mascarados exigiram também através de uma manifestação de rua a
implantação do Museu do Carnaval, espaço destinado para salvaguardar os
elementos que compõem o inventário da festa secular.
Turismo e Patrimônio
Cultural
O artesanato maragojipano é vendido durante os dias da folia momesca. Foto: Lorena Morais/RecôncavoOnline |
O
estudante de Geografia, Erick Conceição, 21, realizou uma pesquisa orientada
pelo professor Jânio Roque Barros de Castro (UNEB), em que ele analisa a
percepção do morador após o registro do carnaval de Maragojipe como patrimônio
imaterial. Ele apresentou os resultados durante a Mesa Redonda sobre a História
do Carnaval de Maragojipe, realizado no domingo, 10 de fevereiro.
Como
uma abordagem geográfica, Erick entrevistou moradores locais e colheu
resultados através de análises dos depoimentos. “Alguns moradores locais viram
com ‘bons olhos’ esse registro, mas ao mesmo tempo eles ficavam receosos com as
modificações que esse registro poderia trazer para a festividade local”,
explica o estudante. Entre essas modificações estão o receio da perda da
originalidade do carnaval.
Erick
também observou que muitos moradores acreditam que o registro iria possibilitar
uma forma de obtenção de renda, com a vinda de mais turistas. “A festa passou a
ser uma coisa do Estado. Houve uma maior divulgação da festividade e isso fez
com que vários turistas viessem conhecer o carnaval. A presença de turistas
hoje [após o registro] é muito maior”, conta.
A
turista soteropolitana Evanyr Rodrigues, 64, diz que mesmo após o registro do
carnaval, que deu visibilidade maior à cidade, o receptivo turístico ainda
precisa melhorar muito. Pela primeira vez na cidade, ela diz que os serviços
são caros e de má qualidade. “Eu achei o valor da hospedagem caro. Não existe
conforto e a cidade precisa de pessoas capacitadas. O gestor tem que se
atentar. O pessoal ligado a esses serviços precisam deste suporte”, critica a
turista.
Dentre
as recomendações para o plano de salvaguarda do carnaval, estão a parceria
entre as Secretarias Municipais e as de Meio Ambiente e Turismo do Governo do
Estado, para exploração do potencial turístico e também a criação de um espaço
para reunir um inventário do carnaval na cidade.
Colaboração de Ernesto Falcón
Matéria original: Portal Recôncavo Online
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